Quero Sal…

…em tudo, um pouco!

Quem é você sem o uniforme? 4 de outubro de 2010

Filed under: EUA,Vida — ... @ 23:35

Humor do dia: Sensível. Texto proibido para quem não reflete sobre a vida.

A pele escura, o rosto com expressão sofrida e traços de índio. O espanhol fluente e o inglês travado não mentia, ele é mexicano. Trabalha durante a semana, fim de semana e feriado no MacDonalds de Dover (NJ) limpando o chão. O sobrinho, com aparência de  18 anos, trabalha no atendimento, junto com a prima Maria, uma mexicana que morou seis anos na California e agora completa dois em New Jersey.

“Chorei muito quando sai da California e vim para cá”, conta Maria. “Lá havia muitos igual a mim e a praia era ao lado. Agora não choro mais, já me adaptei”. Ser mexicano nos Estados Unidos não deve ser fácil. Eles trabalham pesado, limpando casas, nos postos de gasolina e ainda toleram o preconceito. As pessoas dizem, “É tinha que ser mexicano” ou “Ah tudo culpa dos mexicanos”.

Sábado, dia 2 de outubro, dirigi pela primeira vez para Dover (NJ). Não sabia, mas a cidade é povoada de mexicanos. De domingo acontece feira de rua no centro e o trânsito é caótico. Em constrate encontrei alguns restaurantes chineses.  Minha amiga mexicana chegou há 1 mês em Glen Rock (NJ) e desde então ela passa os fins de semana com os primos, sobrinhos e tios, em uma casa pequena e lotada em um bairro simples de Dover.

A cozinha sem fogão elétrico como nas demais casas americanas, mostra o colorido do México. A geladeira lotada de imãs lembrou-me o Brasil. Na sala o computador e a televisão. O menino de 10 anos parece ter algum problema de pele, é muito educado e acompanhava minha amiga em todos os lugares.

Entrei na casa todos foram simpáticos e diziam, “fala português, Brasil fala Portuguese“. Naquele momento lembrei de uma música tradicional que ouvi em um casamento mexicano, que assisti na California. Da costa do Pacífico ao Atlântico dos Estados Unidos os mexicanos cruzam meu caminho. Será apenas coincidência?

Quando entrei no MacDonalds minha amiga apresentou-me o tio, a tia Maria e o primo. Eu sou uma péssima pessoa. Reparei na roupa dele. Calça e camiseta cinza, senti-me estranha. Nunca conversei com nenhum faxineiro do MacDonalds. Isto importa mesmo? Devo ser uma má pessoa…

“Batata frita pequena, suco de laranja e fil-o-fish (MacFish)”, pedi. Toda a conta ficou para o tio. Ele tem uma cota de comida de graça no fast food, por ser um empregado (ou colaborador, como os americanos preferem). Ninguém falou “Bárbara, paga o teu”. Os mexicanos nunca negam comida para ninguém, falo por experiência.

No fim do dia, quando retornei para a casa da Tia Maria, o tio de roupas cinzas, agora usava camiseta branca, shorts e uma sandália. Lembrei do meu avô. A expressão, o jeito de pegar na colher para comer, era muito parecido. Fiquei com vontade de chorar. Tantas pessoas neste mundo sofrem, todos trabalham tanto e nunca são reconhecidos. Enquanto os americanos abrem o lixo para jogar a comida. Gosto de ser latina, como minha amiga disse “Brasil e México é uma combinação perfeita”.

“O que importa nesta vida?” pensei sozinha enquanto a Tia Maria falou “Amo muito tudo isto, venha comer, comprei comida chinesa”. Perguntei “Como aprendeu a falar em português?”. “No MacDonalds todo treinamento aprendo algo novo”. Achei a resposta da minha primeira pergunta em um trecho da música “Nem 5 minutos guardados” do Paralamas do Sucesso e cantei no silêncio dos meus pensamentos enquanto todos falavam em espanhol rapidamente.

“Tanto faz qual é a cor da sua blusa, tanto faz qual é a roupa que você usa”. É a vida deve ser assim…o que importa não é isto!

No fim do dia, o primo mais velho ligou. “Querem ir há uma festa ou ao estádio de futebol?”. Olhei para minha amiga e pensei “futebol”. Assim pegamos meu carro às 19 horas e começamos o trajeto para o Red Bull Arena em Harrison (história para outro post). Assistimos New York vs Kansas City.

Não paguei nada pelos bilhetes e assim voltei para Boonton feliz por ter amigos mexicanos..

Epílogo

“Maricruz, estou muito feliz em New Jersey, sofrendo mas feliz. Obrigada por tudo que fez por mim na CA. Que deus olhe sempre por sua família”. Estas foram minhas palavras para minha amiga mexicana na California. Passei o domingo, dia 3 de outubro, inteiro dentro de casa pensando nos mexicanos e com medo da minha amiga mexicana, em  New Jersey “não ser mais minha amiga”.

Silêncio. Chuva. Música dos Paralamas do Sucesso. E-mail. MSN. Comida. Banho.

Uma mensagem no celular “Achei um restaurante brasileiro em Dover, temos que marcar”, terminou minha amiga.

As palavras, agora, estão para sempre em mim: Méxivo e Brasil, combinação perfeita. Amizade real e sentimentos latinos! Nenhum americano entenderá!

 

2 Responses to “Quem é você sem o uniforme?”

  1. ana flavia Says:

    como vc come e passea gratis hein! aí sim!!
    Adorei o texto! viva, conheça, se envolva e aproveite esta temporada.. vc vai sentir saudades dps!

  2. […] The busiest day of the year was 4 de outubro with 70 views. The most popular post that day was Quem é você sem o uniforme?. […]


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